Durante as primeiras semanas de seu casamento, Clara acreditava ter feito o maior sacrifício de sua vida.
Todas as manhãs, ela acordava na enorme mansão Montemayor, cercada por pinturas valiosas, pisos de mármore e criados que a tratavam como realeza.
Mas nada disso parecia uma bênção.
Porque, todas as noites, ela voltava para o mesmo quarto.
O quarto onde Don Baste se sentava em sua cadeira de rodas, jantando em silêncio enquanto Clara tentava compreender o homem com quem fora obrigada a se casar.
Ele era tudo o que os rumores diziam.
Frio.
Difícil.
Exigente.
Às vezes, ele derramava a bebida de propósito e observava a reação dela.
Às vezes, reclamava da comida, mesmo quando o chef havia preparado os melhores pratos do país.
Às vezes, chamava por ela no meio da noite apenas para
pedir algo simples.
Um copo d'água.
Um cobertor.
Um livro da estante.
Clara sabia o que ele estava fazendo.
Ele estava testando-a.
Mas o que a deixava confusa era que, por trás de toda a crueldade dele, ela via algo mais.
Solidão.
Havia momentos em que Don Baste achava que ela não estava olhando.
Momentos em que sua expressão de raiva desaparecia e seus olhos pareciam dolorosamente vazios.
Certa tarde, Clara entrou na biblioteca da mansão e se viu olhando para uma fotografia antiga.
Era a foto de um homem mais jovem.
Um homem bonito.
Um homem de pé ao lado de uma mulher que parecia ser sua mãe.
Por um breve segundo, Clara viu tristeza no rosto dele.
Depois, ele rapidamente a escondeu.
— O que você está fazendo aqui? — ele disparou.
Clara recuou.
— Eu só estava procurando um livro.
— Você deveria aprender a não entrar nos cômodos sem permissão. – Sinto muito.
Ela se virou para sair.
Mas, antes
de chegar à porta, ouviu-o dizer em voz baixa:
“Você realmente acha que eu sou um monstro?”
Clara parou.
Aos poucos, olhou para trás.
Don Baste ainda estava olhando para a fotografia.
“Não sei o que pensar”, admitiu ela, honestamente.
Um sorriso amargo surgiu em seu rosto.
“Pelo menos você é honesta.”
Clara hesitou.
“As pessoas falam muito sobre você.”
– Perder.
“Chamam você de coisas horríveis.”
Seus dedos apertaram a fotografia. – Perder.
“Mas não acho que alguém seja um monstro só porque as pessoas decidem que é.”
Pela primeira vez desde o casamento, Don Baste olhou diretamente para ela.
E Clara notou algo estranho.
Seus olhos não eram os olhos de um homem cruel.
Eram os olhos de alguém que havia sido ferido por muito tempo.
Naquela noite, Clara encontrou uma pequena caixa diante da porta de seu quarto.
Dentro havia
uma pulseira de diamantes.
Anexado a ela, um bilhete.
“Obrigado por não me olhar da maneira que todos os outros olham.”
Não havia assinatura.
Mas Clara sabia exatamente quem o havia escrito.
Os meses se passaram.
Aos poucos, algo mudou entre eles.
Clara deixou de ver Don Baste como o multimilionário aterrorizante dos boatos.
Ela começou a ver o homem por trás dos boatos.
Descobriu que ele pagava secretamente contas hospitalares de famílias pobres.
Descobriu que ele construía escolas em vilarejos remotos, mas nunca permitia que seu nome aparecesse nelas.
Descobriu que muitos funcionários permaneciam com ele por décadas, não por medo, mas por respeito.
Certa noite, Clara encontrou Don Baste lutando para passar da cadeira de rodas para a cama. Sem hesitar, ela se apressou.
— Deixe-me ajudar.
Ele imediatamente afastou a mão.
— Não.
— Don Baste...
— Eu disse que...
Não.
A voz dele
era dura.
Mas Clara notou que suas mãos tremiam.
Não de raiva.
De vergonha.
— Sou sua esposa — disse ela em voz baixa. — Você não precisa ter vergonha diante de mim.
Essas palavras o atingiram com mais força do que ele imaginava.
Porque ninguém jamais havia falado com ele daquela maneira.
Ninguém havia olhado além de sua aparência.
Naquela noite, Don Baste ficou sentado em silêncio por muito tempo.
Então, finalmente, disse:
— Clara... se você soubesse a verdade sobre mim, me odiaria.
Ela franziu a testa.
— Que verdade?
Mas ele apenas desviou o olhar.
— Ainda não.
Um ano após o casamento, Clara nunca tinha visto Don Baste sem roupas cobrindo todo o corpo.
Ele sempre usava camisas largas.
Mangas compridas.
Jaquetas pesadas.
Mesmo dentro da mansão.
No início, ela pensou que fosse porque ele se sentia desconfortável com o próprio corpo.
Mas então percebeu
outra
coisa.
Ele nunca permitia que ninguém tocasse suas costas.
Nem os médicos. Nem mesmo ela.
Um dia, enquanto o ajudava a organizar seus medicamentos, Clara viu um antigo prontuário médico.
Ela não estava tentando lê-lo.
Mas uma frase lhe chamou a atenção.
"O procedimento reconstrutivo foi realizado com sucesso."
Seu coração falhou uma batida.
Reconstrutivo?
Por que alguém que estava apenas acima do peso precisaria de uma cirurgia reconstrutiva?
Antes que ela pudesse olhar mais de perto, Don Baste tirou o prontuário de sua mão.
— Não faça isso.
A voz dele estava diferente.
Não de raiva.
De medo. “Por que
...esconde tanto?” — perguntou Clara.
Por um momento, o poderoso multimilionário desapareceu.
E ela viu um homem ferido.
“Porque as pessoas só amam as coisas belas, Clara.”
Ela olhou para ele.
“Isso não é verdade.”
“É, sim.”
— Não.
A voz dela tornou-se mais firme.
“Estou me casando com um homem que eu achava que todos odiavam.”

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